Reavivamento e Reforma: por um embasamento em sua verdadeira natureza bíblica

Na Palavra de Deus percebemos, vez após vez, uma necessidade de reavivamento e reforma entre o povo de Deus. Podemos perceber essa verdade na época de Moisés, de Ezequiel, de Isaías e do próprio Jesus. Curiosamente encontramos similaridades entre esses momentos a despeito da distância no tempo e no espaço. Invariavelmente, o desenrolar dessas histórias está totalmente relacionado à obediência, ou não, das ordens de Deus. Na época dos juízes, por exemplo, encontramos a história de Elcana, uma história que revela um momento onde o reavivamento e a reforma eram urgentes. Primeiramente, encontramos Elcana sofrendo as consequências por ter contrariado o plano de Deus com relação à família. Ele escolheu ter mais de uma esposa e essa decisão trouxe problemas não só para ele como para toda sua família. Uma de suas esposas, Penina, humilhava constantemente sua rival, Ana, que não tinha filhos. Ana, por sua vez, não podia considerar seu lar como um lugar de refúgio contra os problemas, pois seu maior problema estava exatamente dentro de casa. Se seu lar não era um abrigo, com certeza ele não incentivava nem estimulava seu relacionamento com Deus. Mas, um fato interessante com relação a Ana é que ela não permitiu que a divisão dentro de sua casa pusesse fim à sua vida de constante comunhão com Deus. A verdade é que os tempos de escassez espiritual também revelam os verdadeiros fiéis. A despeito da situação caótica que Ana enfrentava, ela descobriu, de fato, que seu único refúgio era o Senhor e se apegou a Ele. Em uma época onde buscar a Deus com sinceridade de alma era coisa incomum (1Sam 1:12-15), Ana se destacava por sua piedade e fé. Após muitas súplicas e lutas com Deus, ela teve um filho: Samuel, e cumprindo um voto, deu o filho tão desejado para o serviço do Senhor. Assim também será no futuro: “quando o tempo de prova vier, revelar-se-ão os que fizeram da Palavra de Deus sua regra de vida.”[i] Mesmo longe, cada dia Samuel era objeto de oração por parte de sua mãe. “Cada ano ela lhe fazia, com suas próprias mãos, uma túnica para o serviço. Cada fibra da pequena veste era tecida com oração para que ele fosse puro, nobre e verdadeiro. Ana não pedia para o filho o sucesso do mundo, mas rogava fervorosamente que ele pudesse alcançar o sucesso do Céu.”[ii] Nessa mesma época carente de reavivamento e reforma, Eli era o sacerdote da nação. O interessante é que o líder espiritual do povo de Deus também colhia consequências por não seguir as orientações divinas com relação à família. O problema era que esse sacerdote era um pai condescendente com os erros dos filhos. Amando sua tranquilidade e comodidade, ele não exercia a devida autoridade para corrigir os maus hábitos deles. Submetia-se a seus filhos e os deixava seguir sua própria vontade. Como consequência, seus filhos logo passaram a ser chamados de filhos de Belial (1Sm 2:12), ou, filhos de Satanás (2Cor 6:15). Curiosamente, Eli, que se empenhava em advertir os outros quanto ao pecado (1Sm 1:14), fracassou ao ignorar a presença do pecado na vida daqueles que lhe eram mais próximos. A verdade é que “se Eli houvesse tratado com justiça seus ímpios filhos, teriam sido rejeitados do ofício sacerdotal, e punidos de morte. Temendo assim trazer a ignomínia e a condenação pública a seus filhos, manteve-os nos mais sagrados cargos de confiança.”[iii] O que Eli não percebia era que essa atitude, aparentemente particular, lançava sua influência em toda a nação: “A influência de uma família mal dirigida é desastrosa a toda a sociedade. Por causa da posição de Eli, sua vida familiar era imitada em todo o Israel.”[iv] Talvez seja por causa dessa força da influência que a espiritualidade do povo também era decadente, dependendo de um reavivamento espiritual. Essa é uma relação tão forte que, mesmo no tempo do Novo Testamento, o próprio apóstolo Paulo advertiu quanto à necessidade de que os líderes religiosos fossem líderes, principalmente, dentro dos lares (1Tm 3:4, 12). Mas, quanto a Eli, como se ainda fosse pouco ser descuidado com a educação de seus filhos, ele, o líder espiritual da nação, ainda permitiu que um desastre maior acontecesse: “… a palavra de Senhor era muito rara naqueles dias; as visões não eram frequentes” (1Sm 3:1). Ao analisar essas histórias, percebemos que a negligência quanto à sacralidade do casamento e o descuido por parte dos pais na educação dos filhos têm uma relação direta com nosso contexto atual. Mas, e a escassez da Palavra de Deus? Será que com tantas Bíblias e pregações ao nosso redor podemos dizer que sofremos de escassez da Palavra de Deus? Em um mundo de muitas demandas e responsabilidades, de falta de tempo e comprometimento com o que é vital, não é de se admirar que nossa realidade tenha mais relações com a história passada do que imaginamos. Mesmo vivendo na época em que a Bíblia é o livro mais vendido do mundo, hoje, é completamente compreensível entender que também necessitamos de um reavivamento por falta de contato com a Palavra de Deus! Com certeza o tempo presente é paradoxal. O homem moderno se casa na igreja, promete fidelidade ao cônjuge e a Deus, diz amar os filhos acima de tudo, mas a realidade de uma religião superficial, da falta de amor, de lares desfeitos e filhos abandonados aumenta a cada dia. As Bíblias estão em todo lugar, mas sua filosofia não necessariamente dirige o cotidiano dos cristãos. O desenvolvimento da tecnologia e suas facilidades prometiam o bem mais desejado por todos: tempo livre! Mas depois de tantas invenções o que se tem é uma vida mais corrida e desesperadamente ocupada. Os escravos do trabalho no mundo da técnica e da ciência não têm tempo para Deus, para a família, nem para a educação dos filhos. “Parece estar-se apoderando do mundo, em muitos sentidos, uma intensidade qual nunca antes se viu. Nos divertimentos, no ganhar dinheiro, nas lutas pelo poderio, na própria luta pela existência, há uma força terrível que absorve o corpo, o espírito e a alma.”[v] Infelizmente, quanto mais nos envolvemos com os apelos desse tempo e os priorizamos, mais a Palavra de Deus se torna incomum em nossa vida. Se hoje falta fé para seguirmos a Palavra, não é porque ela é rara, mas porque estamos muito ocupados e não temos tempo para nos familiarizar com ela. Jim Hohnberger em seu livro Fuga para Deus menciona uma ilustração interessante acerca dessa realidade. É a simulação de uma convenção dirigida por Satanás com o objetivo de atacar os filhos de Deus e a conclusão da convenção foi a seguinte: “Escutem bem, seus demônios! Vocês não farão com que os cristãos deixem de frequentar os cultos, pois eles continuarão a fazê-lo! Vocês não conseguirão evitar que eles se apeguem a suas doutrinas nem que façam suas orações. Eles continuarão a fazê-lo! Devemos mudar nossa tática se quisermos continuar a ter sucesso. A chave para isso é tempo, meus amigos. Podemos deixar que eles continuem com suas doutrinas, suas orações e seus cultos, contanto que controlemos o tempo deles. O tempo é o ingrediente mais importante, pois se eles não tiverem tempo, nunca vão conseguir aquela conexão salvadora com Jesus!”[vi] Talvez uma boa pergunta para nós agora fosse: Será que precisamos de reavivamento e reformas? Estamos como a nação israelita na época dos Juízes e na época do profeta Ezequiel[vii], como um amontoado de ossos secos precisando de uma nova vida. “Um reavivamento da verdadeira piedade entre nós, eis a maior e a mais urgente de todas as nossas necessidades.”[viii] Por mais óbvio que pareça, o fato é que essa verdade só será incutida em nosso coração quando reconhecermos nossa real condição. “O homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las porque elas se discernem espiritualmente” (1 Cor 2:14). “Satanás emprega todo artifício possível para impedir os homens de obter o conhecimento da Bíblia; pois os claros ensinos desta põem a descoberto os seus enganos.”[ix] Além de analisarmos o contexto de uma época que precisava de reavivamento e reforma e destacar suas semelhanças com nosso tempo, podemos, também, destacar os fatores que embasaram seu reavivamento e reforma. Sendo assim, podemos destacar três bases simples que caracterizaram não só o reavivamento na época dos Juízes, como em toda história:
  1. A Palavra de Deus
Todo grande reavivamento ao longo da história foi enraizado na Palavra de Deus. A Bíblia não só nos orienta rumo ao reavivamento desejado como nos alerta a não crermos em nenhuma intenção de reavivamento que não esteja totalmente unida à Palavra de Deus e ao contato diário com ela. “A Bíblia foi destinada a ser guia a todos os que desejassem familiarizar-se com a vontade de seu criador.”[x] “A Bíblia precisa ser destacada em todo esse movimento, que não tem por base o que sentimos, mas como reagimos. A reação esperada por Deus não são apenas lágrimas, nem momentos agitados de ‘louvor’, muito menos a procura por pregadores carismáticos, mas uma busca séria e profunda pelas verdades da Palavra de Deus. Não existe despertamento místico, emocional ou ecumênico. O verdadeiro despertamento leva a igreja de volta à Bíblia, à mensagem original e às orientações de Deus.”[xi]
  • Oração
Quando falamos de reavivamento, ressaltamos a importância da Palavra de Deus e destacamos, também, que “os maiores reavivamentos da história têm sido resultado de oração diligente e sincera. As centelhas do reavivamento são acesas no altar da oração. Reavivamento e oração estão indissoluvelmente ligados. Sem oração insistente e perseverante não há poder correspondente. Ellen White não poderia ter sido mais clara ao relatar essa verdade divina: Só podemos esperar um reavivamento em resposta à oração.”[xii] Jesus, aquele que liderou o maior movimento de reavivamento e reforma da história, era um homem de oração. Embora Ele fosse super atarefado, nunca estava tão ocupado que não conseguisse orar. Sua agenda nunca estava tão cheia a ponto de impedi-Lo de gastar tempo no relacionamento com Seu Pai celestial. “Uma das maiores mentiras de Satanás é dizer-nos que não temos tempo para orar. A oração é vital na vida do verdadeiro cristão. Tão logo percebermos que orar é tão importante como dormir, comer e respirar, ficaremos admirados com o quanto teremos de tempo a mais para orar.”[xiii] “As maiores vitórias obtidas em favor da causa de Deus, não são o resultado de elaborados argumentos, amplos recursos, vasta influência, ou abundância de meios; elas são alcançadas na câmara de audiência com Deus, quando, com sincera e angustiosa fé, os homens se apegam ao forte braço do poder.”[xiv]
  • Testemunho
Todo verdadeiro reavivamento é centralizado na Palavra de Deus, baseado na oração e focado em compartilhar o amor de Jesus com os outros. Um coração reavivado é um coração que testemunha e testemunho é resultado de se ter uma nova visão do Senhor. Quando Moisés viu o Senhor na sarça, ele respondeu com reverência e serviço. Na verdade, aquela experiência com o Senhor o preparou para o serviço (Êx. 3:5). Quando Isaías viu o Senhor num alto e sublime trono, ele se dispôs para o serviço: “Eis me aqui, envia-me a mim” (Is. 6:1-5). Quando Saulo viu o Senhor na estrada de Damasco, sua resposta foi: “Senhor, que queres que eu faça?” (Atos 9:6). Quanto mais cheios da revelação do Espírito Santo, mais desejaremos compartilhar o Cristo que tem mudado nossa própria vida. Quanto mais compartilhamos Jesus com os outros, mais o Espírito Santo nos preencherá para dividirmos ainda mais o amor de Cristo. “O grande derramamento do Espírito de Deus, o qual ilumina a Terra toda com Sua glória, não há de ter lugar enquanto não tivermos um povo esclarecido, que conheça por experiência o que seja ser cooperador de Deus. Quando tivermos uma consagração completa, de todo o coração, ao serviço de Cristo, Deus reconhecerá esse fato mediante um derramamento, sem medida, de Seu Espírito; mas isso não acontecerá enquanto a maior parte dos membros da igreja não forem cooperadores de Deus”.[xv] Voltando à época dos Juízes, percebemos que Ana manteve seus votos e educou seu filho segundo a vontade de Deus. E o resultado de se seguir a vontade divina, a despeito de um contexto espiritual totalmente desfavorável, foi que: “Samuel crescia, e o Senhor era com ele e não deixou nenhuma de todas as suas palavras cair em terra” (1Sm 3:19), ele foi um homem ligado à Palavra de Deus, um homem de oração que viveu para testemunhar do Deus que conhecia. E “Samuel, pois, falou a toda a casa de Israel, dizendo: Se de todo o vosso coração voltais para o Senhor, lançai do meio de vós os deuses estranhos e as astarotes, preparai o vosso coração para com o Senhor, e servi a Ele só; e Ele vos livrará da mão dos filisteus” (1Sm 7:3). Só um homem assim, fiel à Palavra, dependente da oração, da comunhão com Deus, e que vivia para testemunhar e revelar a vontade de Deus poderia ter liderado o povo em um dos maiores reavivamentos da história da nação israelita. A situação daquela época era tão deplorável quanto a nossa hoje. Naqueles dias nasceu uma criança e sua mãe lhe deu o nome de Icabode cujo significado é: ‘foi-se a glória’. Com esse ato, ela quis dizer que tudo parecia perdido. Mas Deus é misericordioso e após o reavivamento e a reforma liderados por Samuel, o povo teve uma grande vitória e experimentou de volta a glória do Senhor. Em nossos dias, “não há nada que Satanás tema tanto como que o povo de Deus limpe o caminho mediante a remoção de todo impedimento, de modo que o Senhor possa derramar o Seu Espírito sobre uma igreja debilitada e uma impenitente congregação.”[xvi] Cabe a nós aprendermos a lição com os tempos passados. Nossa necessidade é a de um reavivamento e reforma, mas Deus é misericordioso e está pronto para derramar sobre nós sua graça regeneradora. “Não é por qualquer restrição da parte de Deus que as riquezas de Sua graça não fluem para a Terra em favor dos homens. Se o cumprimento da promessa não é visto como poderia ser, é porque a promessa não é apreciada como devia ser. Se todos estivessem dispostos, todos seriam cheios do Espírito.”[xvii] A promessa vale para nós hoje: “Antes de os juízos finais de Deus caírem sobre a Terra, haverá, entre o povo do Senhor, tal avivamento da primitiva piedade como não fora testemunhado desde os tempos apostólicos. O Espírito e o poder de Deus serão derramados sobre Seus filhos.”[xviii] O Senhor reavivará o Seu povo, devemos, portanto, exercitar nossa fé para estar entre aqueles que experimentarão o cumprimento da Palavra do Senhor.
[i] Ellen G. White, O Grande Conflito, p. 602. [ii]____________, Patriarcas e Profetas, p. 572. [iii]Ibid., p. 577. [iv]Ibid., p. 573. [v] Ellen G. White, Educação, p. 160. [vi]Jim Hohnberger; Tim e Julie Canuteson, Fuga para Deus, p. 29 e 30. [vii]Ver Ezequiel capítulo 37 [viii]Ellen G. White, Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 121. [ix]Ellen G. White, O Grande Conflito, p. 593. [x]Ibd., p.521 [xi]Erton Köhler, ‘Reavivamento e Reforma’, Revista Adventista, Setembro de 2011, p.4. [xii]Mark Finley, O Reavivamento Prometido, p. 9 e citação de Ellen G. White, Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 121. [xiii]Dave Earley,Transformando Membros em Líderes: ministério igreja em células, 2009, p.30. [xiv]Ellen G. White, Obreiros Evangélicos, p. 259. [xv]____________, Serviço Cristão, p. 253. [xvi]___________, Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 124. [xvii]____________, Atos dos Apóstolos, p. 50. [xviii]____________, O Grande Conflito, p.464.

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